“Vira e meche eu encontro a danada, mas vira e meche também ela insiste em fugir! Dia desses a vi debaixo da escada, mas ela disse que estava atrasada e eu aceitei, com preguiça de correr atrás. Mais tarde ela voltou, sorrateira, sem falar nada e deixando uma sensação de missão cumprida no final do dia, se enfiou comigo embaixo das cobertas, quentinha e ali ficou! Só foi embora quando o relógio despertou fazendo um rebuliço e me lembrando que ainda estava frio.

Durante o dia ela voltou em situações bobas como o sorriso de um bebê no colo de uma mãe, a barra de chocolate que eu lembrei que tinha na gaveta e um telefonema de surpresinha no meio do meu dia! Ela ia e voltava, ia e voltava: como a vida. Autônoma. Por conta própria! À noite ela apareceu na porta do meu banheiro, fez tanta força que entrou mesmo com a porta fechada sem se incomodar com a inconveniência e em perturbar meu banho relaxante. Focinhou a porta do box e me mostrou a bolinha de brinquedo me chamando para brincar! Ao mesmo tempo a danada entrou pela janela revestida de cheiro bolo de maracujá! Veio em dose dupla querendo me tentar!
Às vezes ela desaparece durante tanto tempo que me falta o ar e me dói o peito. Dá uma saudade louca! Fica um vazio depressivo, um buraco, um poço que nem parece ter mola no fundo. Fico me sentindo apenas mais uma e eu ODEIO ser mais uma! Ora bolas! Quando eu nasci Deus me disse: Desce e arrasa, esqueceram¿

Não posso negar a dependência que eu tenho dela. Mas eu aprendi, aos trancos e barrancos, que ela não aparece somente numa grande história de amor, numa viagem com tudo pago para a Disney, numa lua de mel em Veneza ou numa bufunfa boa lá na minha conta carente, ops, corrente! Ela, na maioria das vezes dá as caras pelo lado simples da vida! Ontem por exemplo ela apareceu numa tomada! Eu estava numa sala de espera lotada, aguardando para abrir a boca naquela cadeira de tortura e ouvir da minha dentista um cínico “não vai doer” (sabendo que é mentira!). E ela apareceu. Eu precisava recarregar meu celular para saber o que havia escrito na mensagem que o menino mais amado do mundo havia me escrito e uma tomada apareceu do meu lado, bem assim: PUFT! Foi só afastar um pouco as revistas Caras e outras do mesmo gênero (enquanto você espera para saber como vão seus dentes, você fica sabendo como vão os dentes dos outros!). E lá estava a mensagem dele, esquisito como sempre, mas com aquele jeitinho doce e charmoso. A felicidade entrou na pontinha dos pés e sentou ao meu lado! Eu não estava mais sozinha esperando o palitinho de picolé ser enfiado na minha guela! Às vezes o trânsito está todo parado e ela acena no carro ao lado, mas logo depois toma bronca do pai para sentar direito na cadeirinha e fica lá encolhidinha morrendo de vergonha! Ela mora numa gaveta cheia de bobeirinhas lá em casa, que tem nariz de palhaço de festa a fantasia, bilhetinho de amor antigo, fotos da minha bochecha quando eu tinha cinco anos e lembranças de carinho em flores secas. Ela toma banho comigo quando a água leva embora coisa ruim (além de sujeira!) e renova a alma! Ela até dorme ao meu lado quando eu descanso depois do almoço de domingo com o meu namoradinho a tiracolo abraçadinhos. Ela é virtual nos depoimentos que deixam para mim em meu orkut, e ela é fantasma quando eu lembro do meu avô dizendo que eu era a menina mais linda do mundo. A menina mais linda do mundo pequeno do meu avô.

A felicidade mora num mundo pequeno todo seu e não naquele grande que faz você se perder demais, querer demais, sonhar demais e não alcançar demais também! A felicidade é simples, está nas coisas simples e depende muito mais de você do que de qualquer outra coisa ou pessoa… E quando você descobre isso ela deixa de ser uma espera e passa a ser um minuto, um segundo ou uma vida inteira! (Afinal, é de minutos e segundos que se faz a vida). E aí você perde menos tempo procurando, vasculhando, especulando e esperando e mais tempo vivendo, sorrindo e sendo feliz! Entre o piegas e o démodé, é assim que ando por aí vivendo a vida intensamente (na medida do possível!) sem esperar momentos intensos demais.

Já tentastes? Já tentastes não imaginar a sua felicidade na outra festa que você estaria se não estivesse nessa porque não tinha grana pra bancar a outra? Já tentou imaginar que ela está nessa festa ralé mesmo? Tente!!! Pode ser numa música boba, num salgadinho engordurado, na caipirinha que entornarem comicamente em você ou num amigo que você não via há muito tempo. Pode ser morrendo de rir de uma noite super programa de índio, por que não? Eu sempre esperei viver uma história de cinema, ouvir cantadas de filme francês, ganhar salário de estrela, corpo de capa de revista, romance de conto de fadas, casamento a la “e viveram felizes para sempre!” e enterro de celebridade! Ai eu lembrei que os filmes de que eu mais gosto são aqueles bobos que contam a história de uma pessoa idiota… como eu!”

Texto adaptado a algum tempo da inspiração da Tati!
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